Raw sugar crystals beside a cut sugarcane stalk

Foco setorial

Uma usina são três plantas em uma: onde o valor se esconde no açúcar e no etanol

Processo, água e energia: por que o setor sucroenergético é o lugar natural para a IA de toda a planta e a recuperação de resíduos.

Vista do pátio de cana, uma usina do setor sucroenergético é uma fábrica. Vista pelo balanço, são três: uma planta de processo que transforma cana em açúcar e etanol, uma planta de água que movimenta e reaproveita volumes muito grandes e uma usina de energia que queima bagaço para abastecer a unidade e, cada vez mais, exportar eletricidade. Cada uma costuma ser gerida pelos próprios critérios. Boa parte do valor que as usinas deixam na mesa está nas fronteiras entre elas.

Uma escala que transforma margens pequenas em números grandes

O Brasil é o maior produtor de cana-de-açúcar do mundo, e o Centro-Sul responde pela maior parte da safra nacional. Na safra 2025/26, as usinas da região moeram cerca de 611 milhões de toneladas de cana e produziram 40,4 milhões de toneladas de açúcar e 33,7 bilhões de litros de etanol, mais de um quarto dele de milho, segundo a UNICA. Nessa escala, uma fração de ponto percentual em extração, consumo de vapor ou rendimento fermentativo vale mais do que muitos projetos isolados.

As usinas também trabalham com um calendário que não perdoa surpresas. A moagem se concentra nos meses de safra, e uma parada não programada no meio da temporada não se recupera depois: ou a cana espera e perde açúcar, ou vai para outro lugar.

A planta de processo

A cadeia de processo é longa e fortemente acoplada: preparo e moagem ou difusão, tratamento do caldo, evaporação, cozimento, fermentação e destilação. O mix entre açúcar e etanol muda com os preços, às vezes dentro da mesma safra, e cada mudança altera a carga de todas as etapas seguintes. Otimizar uma delas isoladamente, forçando a extração, por exemplo, pode aumentar a demanda de vapor ou mandar mais impurezas para a fermentação, e custar mais do que rende.

A planta de água

A cana tem cerca de 70% de água; em tese, portanto, a usina recebe com a matéria-prima mais água do que precisa. Na prática, movimenta volumes muito grandes em embebição, condensadores, circuitos de resfriamento, alimentação de caldeiras e limpeza, e sua outorga depende de quão bem esses circuitos estão fechados. Nas últimas décadas, o setor reduziu de forma expressiva a captação de água nova por tonelada de cana, reaproveitando condensados e fechando circuitos. Os ganhos que restam dependem de gerir a água como uma rede única, e não como um conjunto de utilidades separadas.

A usina de energia

O bagaço, cerca de um quarto do peso da cana, alimenta as caldeiras que fornecem vapor e eletricidade à usina, e muitas unidades exportam o excedente para a rede. Cada tonelada de vapor economizada na evaporação ou no cozimento é bagaço que pode virar energia exportada, estoque para a entressafra ou receita de venda. O balanço de vapor é o ponto de encontro das três plantas, e por isso é tão difícil otimizá-lo de dentro de qualquer uma delas.

A maior parte do valor que uma usina deixa na mesa está nas fronteiras entre suas três plantas.

Resíduos como linha de produtos

Cada litro de etanol de cana deixa para trás, em média, de 10 a 13 litros de vinhaça, e até 20 em algumas destilarias, o que significa que o setor gera centenas de bilhões de litros de vinhaça a cada safra. A maior parte volta ao campo pela fertirrigação, onde o potássio tem valor agronômico real, mas o volume, a sazonalidade e o custo de transportar um líquido diluído limitam a distância que ela pode percorrer. A torta de filtro, rica em fósforo e matéria orgânica, e a cinza de caldeira seguem lógica parecida: úteis perto da usina, custo quando precisam ir longe.

Algumas usinas já concentram a vinhaça ou a destinam à biodigestão para produzir biogás e biometano. A oportunidade mais ampla é tratar cada corrente de resíduo como fonte de produtos definidos, sejam nutrientes, energia ou minerais, com especificação e mercado, e não como uma linha de descarte na licença ambiental.

Uma visão única da planta

O fio condutor é que cada um desses problemas só aparece quando as três plantas são vistas em conjunto. Uma decisão no cozimento muda o balanço de vapor, que muda o excedente de bagaço, que muda tanto a energia exportada quanto a água captada para resfriamento. Modelos da planta inteira que respeitem essas ligações, e dados que atravessem as fronteiras tradicionais entre departamentos, são o que transforma melhorias locais em ganhos para toda a unidade.

O Banker Group atua com o setor nas duas frentes: a PreAur, uma das empresas do grupo, leva inteligência operacional de toda a planta às usinas, e a Corterra 770 avalia correntes de resíduos em busca de valor recuperável.

Fontes

  1. UNICA, relatório final da safra 2025/26 no Centro-Sul, 2026
  2. FAO, FAOSTAT, estatísticas de produção agrícola
  3. Embrapa (repositório Alice), Oliveira, Ramos e Silva, avaliação da sustentabilidade de alternativas de uso da vinhaça, 2025
  4. Frontiers in Energy Research, Rodrigues Reis e Hu, vinhaça da produção de etanol de cana, 2017

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