Aerial view of centre-pivot irrigated farmland

Foco setorial

Da dependência de importações aos nutrientes recuperados

O Brasil importa a maior parte dos fertilizantes que usa. Seus próprios resíduos agroindustriais podem fechar parte dessa lacuna, se forem tratados como produtos, e não como lixo.

O Brasil é um dos maiores exportadores agrícolas do mundo e, ao mesmo tempo, um dos importadores de fertilizantes mais expostos. O país responde por cerca de 8% do consumo global de fertilizantes, a quarta maior fatia, atrás apenas de China, Índia e Estados Unidos, segundo o Plano Nacional de Fertilizantes. Ainda assim, a maior parte do que se aplica nas lavouras brasileiras chega de navio.

O tamanho da dependência

Segundo dados da ANDA citados no plano, o Brasil importou 85% dos fertilizantes que consumiu em 2020. O potássio, nutriente mais aplicado pela agricultura brasileira, é também o que o país importa quase integralmente: 96,4% em 2020. Nos fosfatados, a dependência de importação subiu de 44% em 2000 para 72% em 2020. A importação de fertilizantes continuou crescendo desde então: a Conab registrou o recorde de 45,5 milhões de toneladas em 2025, ante 44,3 milhões em 2024.

O risco ficou evidente em 2021 e 2022, quando rupturas na oferta e a guerra na Ucrânia fizeram os preços internacionais dos fertilizantes dispararem e expuseram a concentração dos principais países fornecedores. O Plano Nacional de Fertilizantes, lançado em 2022, fixou a meta de reduzir a dependência de importações para cerca de 45% até 2050, com nova produção nacional, uso mais eficiente e fontes alternativas.

Nutrientes que já estão aqui

Parte da resposta é geológica: novos projetos de fosfato e potássio e os remineralizadores de solo, reconhecidos como categoria de insumo agrícola pela legislação brasileira desde 2013. Outra parte já circula pela própria agroindústria do país. Soja, milho e cana-de-açúcar respondem por mais de 73% do consumo de fertilizantes no Brasil, e as usinas de cana devolvem parte desses nutrientes em seus resíduos: a vinhaça, rica em potássio; a torta de filtro, com fósforo e matéria orgânica; e a cinza de caldeira. A avicultura, a suinocultura, a indústria de alimentos e o esgoto urbano somam correntes ricas em nitrogênio e fósforo.

O próprio plano reconhece a oportunidade. Ele inclui os fertilizantes organominerais e orgânicos, os subprodutos com potencial de uso agrícola e os bioinsumos entre as oportunidades emergentes, e registra que a cadeia de aproveitamento de resíduos como fertilizantes ainda não está consolidada no Brasil e que faltam informações regionalizadas sobre a disponibilidade e as características desses resíduos.

Um resíduo vira fertilizante quando ganha uma especificação, não quando ganha um destino.

Por que recuperar é mais difícil do que parece

Resíduos são diluídos, úmidos, variáveis e sazonais. A vinhaça é quase toda água, o que encarece levá-la para longe da usina, e sua composição muda com a cana, o momento da safra e o processo. Dejetos e lodos podem carregar patógenos, e alguns resíduos contêm metais ou sais que restringem onde podem ser aplicados.

O agricultor, ou o misturador de fertilizantes, não compra um resíduo. Compra um produto com teor garantido de nutrientes, liberação previsível, forma física compatível com seus equipamentos e um registro que permita a comercialização. O plano aponta a padronização da matéria-prima como a maior dificuldade na produção de organominerais e descreve esses produtos como ainda bastante primários, em geral granulados simples, com muito a avançar na padronização do teor de nutrientes. Fechar essa lacuna é uma tarefa de engenharia e de regulação, tanto quanto de agronomia.

O que é preciso para fechar a lacuna

Os resíduos já são gerados e manejados, com custo. Recuperar nutrientes em escala exige um inventário claro do que cada corrente contém e de quanto ela varia; processos que concentrem e estabilizem os nutrientes sem gastar mais energia do que o produto vale; especificações que atendam às regras de registro; e uma logística que case a oferta sazonal com a demanda sazonal. Nada disso, sozinho, substitui o potássio importado. Em conjunto, porém, pode reduzir a exposição, agregar valor a resíduos que hoje são custo de descarte e devolver nutrientes aos solos de onde vieram.

A eficiência entra na mesma conta. O plano cita estimativas de que 40% a 70% do nitrogênio, 80% a 90% do fósforo e 50% a 90% do potássio aplicados nas lavouras não são aproveitados pela planta. Produtos que liberam nutrientes quando e onde a cultura precisa reduzem a demanda, e não só as importações.

No Banker Group, a Corterra 770 avalia correntes de resíduos em busca de nutrientes e minerais recuperáveis, e a HydroQ cuida da água que vem com elas.

Fontes

  1. Governo Federal, Plano Nacional de Fertilizantes 2022–2050, 2022
  2. Ministério da Agricultura, anúncio das metas do Plano Nacional de Fertilizantes, março de 2022
  3. ANDA, estatísticas do mercado de fertilizantes, 2021, citadas no Plano Nacional de Fertilizantes
  4. Conab, Boletim Logístico, janeiro de 2026

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